quinta-feira, 1 de maio de 2014

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RENOVAÇÃO




É escuro... Frio... Desconcertante.
Não há nada ali. Não há nem sequer o nada, e mesmo assim contém tudo.
E mesmo com tudo, algo sempre falta. E essa falta diminui, transformando em dor por não mais existir.
Há somente o vazio acumulado em meio a tantas perdas e lágrimas. Então a dor sufoca, ao ponto de já não ser entendida, e ela se afoga dentro de todas as lamentações.
 Não há ninguém ali. Não há sequer seu próprio eu. Foi embora... Aos poucos, despercebido. Ignorado e desprezado. Sentiu-se inútil e perdeu o brilho. Já não iluminava os arredores, nem ao menos sua própria face. Tornara-se um estranho para si mesmo, então a luz se apagou.
Perguntava-se o que havia acontecido, onde tinha errado que mal teria feito, a quem tivera abandonado. Questionou-se a tudo o que poderia ter acontecido e se perdeu.
Sentiu-se inútil... Revoltando-se contra si mesmo tentava descobrir o que não lhe parecia ter sentido. Estivera ao lado dos que o procuravam e todos eles o haviam deixado.  Ouvira suas dores, falava sobre esperança tentando convencer a si mesmo que esta ainda existia.
Agora nada disso parecia ter sentido. A muito se esqueceu do que de fato importava, por ouvir o que não vinha de dentro, inundando-se de opiniões desnecessárias.
Desmontou-se em vários pedaços e se desfez de si, precisava visitar os espaços que um dia lhe pertenceram, e acertar as contas que com a própria história.
Chegara a hora de enfrentar seus demônios e expulsa-los definitivamente. Aquietando-se no fundo da sala, tentava deixar a dor passar. Mas ela permanecia inerte. Então pensou: "Talvez seja assim que as pessoas grandes se sentem quando suas verdades são desfeitas e as ilusões chegam ao fim. Ou quando uma criança descobre que seu herói favorito não vai aparecer para lhe salvar."
Era uma pessoa grande com medo da vida, e uma criança com medo do escuro. Seu fim estava próximo, e a angústia o massacrou, suas alucinações passaram a lhe furtar da realidade. Quis a morte como meio de liberdade, como solução para o desafeto, uma ponte que o tirasse do desespero.
Pensou por horas a fio, e também se cansou de pensar, permitiu-se despencar e tocar o chão, sentindo o concreto ferir-lhe o corpo e preferindo mil vezes sua dor física por saber de onde vinha e por saber como curá-la.
Então ele desistiu... De absolutamente tudo. Ficou imóvel, cerrou os olhos e logo adormeceu.
Sonhou com pássaros, estrelas e muita luz. Viu a beleza das coisas e notou que não estava só. Sentiu vontade de voar, estufou o peito e preparou-se para sair do chão, alçou vôo e foi além. Quebrou as correntes que lhe impediam de ser feliz. Ultrapassou as fronteiras de suas loucuras. Deixou o vento levar as incertezas e permitiu-se respirar o melhor que havia em si. Abriu um largo sorriso e se libertou de seu cárcere mental. Visitou lugares, apreciou pessoas, cantou e sentiu que a vida podia ser mais, muito mais. Estava em paz, e logo viu um sujeito caído desfalecidamente ao chão e perguntou-se o que havia acontecido. Ao se aproximar reconheceu aquela face, pois ela lhe pertencia. Teve medo, pois estava feliz e desesperou-se por pensar ter perdido a vida e seu estado atual ser apenas reflexo de uma passagem após a morte.
O corpo sumira, a luz se apagou e então despertou. Em meio a tudo, estava tranquilo, porém confuso. Então lembrara o sonho e se emocionou, teve os olhos imersos em meio às lágrimas advindas das emoções de estar vivo e desejou seguir a luz. Sentiu a necessidade de ser livre.
Em sua caminhada deparou-se com partidas e perdas, teve que dizer adeus a quem não queria deixar, mas não se prendeu a dor, deixou-se sentir e a superar para então receber o que ainda estava por vir. Sorriu por coisas simples e deu gargalhadas com o que não pôde compreender. Aceitou sua limitação e se permitiu errar por não ser perfeito. Esteve feliz pelo tempo que precisava ser feliz e ficou triste por precisar saber-se humano. Deixou de existir e passou a viver de seu jeito, á sua maneira. Podia até não ser notado pelos outros, mas reconhecia a si mesmo e isso lhe bastava. Sabia que não precisava ser perfeito, apenas ser de verdade, e seguiu em frente.

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