O dia já havia
amanhecido triste. Chovia lá fora e o barulho da água martelava as emoções que
a pouco já não mais incomodavam. Era apenas mais um dia, o que poderia ter de
mal em se viver nele? O fato é que nem o mal havia, somente memórias, emoções
que resolveram ressurgir no vazio entrecortado pela dança das águas. Não era
vento, portanto não havia tempestade. Nem trovões tampouco os relâmpagos que me
faziam tremer por dentro. Não era nada disso, era pior. Era o silêncio sendo
quebrado pelas lembranças de promessas desfeitas, onde na verdade, estas nunca
deveriam ter existido. Mas somos assim não é mesmo? Acreditamos naquilo que
nosso coração determina ser o certo, e quando enfim ele é quebrado, há somente
a razão nos cobrando por a termos abandonado.
Então a gente
tenta fugir, para longe de tudo aquilo que se viveu, mas que agora já não mais
se quer lembrar que um dia existiu. É ignorar e tentar viver á deriva de seu
próprio ser, pois este nos afoga e já não mais sabemos como nadar, como se tudo
não passasse de um sonho que agora se desfez.
Existindo
apenas. Ocupando um mero espaço no tempo sem a menor perspectiva de futuro com
o que se está vivenciando. As horas se arrastam e as angústias apenas aumentam.
Nem ao menos os lados existem e não se tem para onde olhar. É vazio, monótono
como se não houvesse mais sentido. Habitar um espaço no qual não se é possível
mais reconhecer torna tudo desprovido de significados. São olhares diferentes,
vozes sem entonação e o clima pesado pairando sobre tudo. Não quero conversas,
e nem explicações. Não preciso que me digam qual o certo e nem o porque devo
continuar. Estou farta dessa falsa importância, desses gestos ensaiados e de
todo esse papo furado que falam por aí.
Quero meus planos,
meus sonhos e minha incontestável relutância em aceitar o comum. Quero as
palavras dando vida aos sentimentos não expressados e ás vozes não escutadas.
Quero meu silencio e meu barulho. Minha letra e meus rabiscos. Meu som e meu
eco, e todas as ondas que ele puder transmitir. Quero tudo isso porque sinto
que vem de dentro, que é meu e que ninguém pode roubar de mim. Porque esse foco
me pertence e sem ele perco a luz, erro a direção. Tentando fazer de tudo para agradar os outros
percebi que meu "nada" me agrada muito mais.
Talvez eu siga
assim acreditando mais em mim, ou apenas deixando de confiar mais nos outros.
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